sábado, 27 de novembro de 2010

Ensaio sobre a cegueira

"O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui"

Logo no segundo parágrafo de Ensaio sobre a cegueira nos deparamos com o grito desesperado “estou cego”. E, assim, a cegueira que invade os olhos dos personagens como um mar de leite, espalha-se rapidamente: primeiro para os que têm contato com o primeiro cego e, logo depois, para toda a cidade. Trancados em um manicômio pelas autoridades, os cegos estão destinados a reaprender a viver em sociedade, lidando com a sujeira, o caos e o primitivismo. No meio de tantas cenas fortes de personagens tomados pela “cegueira branca”, o que nos chama a atenção é a única personagem da cidade (e do livro!) que não fica cega e, assim, a única que pode ver o ser humano passando do social ao estado de barbárie. São passagens fortes e chocantes que levam o leitor a repensar os seus valores e a fragilidade da sociedade a que está inserido. Mas vai além do imundo. Traz ao leitor a solidariedade frente ao desespero, a amizade além das aparências, o amor e companheirismo no casamento e, principalmente, a ajuda ao próximo sem nada pedir em troca.

O filme de Fernando Meirelles não fica abaixo. Com uma fotografia absurdamente fantástica, o filme é menos sujo, nojento e grotesco do que o livro, o que era uma preocupação de Saramago: não tornar o filme um horror comercial. E não faz por acaso: já li o livro há quase dois anos e as imagens da velha canibal e do estupro coletivo ainda me atormentam a alma. Mesmo sem essas cenas no filme, ele continua sendo impactante e, confesso, arrancando lágrimas e suspiros de tristeza, horror e compaixão.

O livro, que é do ganhador do Nobel de Literatura, José Saramago, não tem vampiros (que, meu Deus, parece ser a mais nova febre mundial!), casal bonitinho e nem um galã de olho azul. E é por isso que ele é muito bom: nos tira da nossa zona de conforto. Por este motivo, termino o post propondo a questão mais inquietante do livro:

Porque só a mulher do médico não perde a visão?

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